LIVING IN THE WORLD THE iMAC CREATED VIVER NO MUNDO QUE O iMAC CRIOU
-Date: 2023-08-19 · Technology · Apple · Society Tecnologia · Apple · Sociedade
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ENTRY DATADADOS DA ENTRADA
DateData 2023-08-19
Tags Technology · Apple · Society Tecnologia · Apple · Sociedade
Originally atPublicado em O Estado de São Paulo
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Originally published at O Estado de São Paulo on August 19, 2023.

In a recent column, Pedro Doria uses the occasion of the iMac's 25th anniversary to show how the technological artifacts we use daily trace much of their ancestry back to Apple's revolutionary computer. It was the iMac that shaped much of what we now understand by technology — and especially our relationship with technology. This is not, in any way, an erroneous claim. But, in my view, an even more interesting question would be: and what does that mean?

Far from being a critical column, Doria's observation about the importance of the great Silicon Valley technology companies and their dominance over our perception, understanding, and relationship with technologies is one of the central points made by Morozov (2018). Even though Morozov focuses on the relationship between data, algorithms, AI, and the results-oriented culture that dominates current implementations of such technologies — and its contradictory relationship with democratic principles — his central argument is that we are today incapable of imagining a radically technological world that is nonetheless free from Silicon Valley's constraints. This closely echoes Mark Fisher's Capitalist Realism (2020). The same applies to the iMac.

Does this mean that the legacy of Steve Jobs and his colorful computer is entirely negative? Not at all. It is necessary to understand, however, that technological artifacts are profoundly paradoxical (Mick & Fournier, 1998). That is: if on one hand the iMac was less intimidating and easier to use for those less versed in technology, on the other it stripped its users of control over their system and its functions. And by no longer teaching its users how it worked, it introduced a massive group of technologically vulnerable people into a market dominated by technological experts.

The Paradoxes We Inherited

Today, the paradoxical results of the industry's move in that direction are evident: although our phones and other smart devices are highly accessible and intuitive — at least in principle — this comes with massive precariousness in terms of users' actual knowledge about technology. Without that knowledge, it is easy to exploit this base with all manner of lies and half-truths.

An example I recently discovered involves Dropbox, when someone tried to share a work folder with me — I had no account on the platform at the time. Unlike any other cloud storage service I know, Dropbox does not charge for available disk space, but for the space available for each user to access. That is: if I have a large amount of contracted storage and want to share a 100GB folder with you, you can only access those files if you also have at least 100GB contracted. The model is completely disconnected from how hard drives actually function, and it is an affront to the consumer. If I am paying for 100GB on a remote disk inside a server, I should be able to choose who accesses that data — and that would cost the service provider no additional storage. But to be outraged by this absurdity — as I was — requires at least a minimal understanding of how these systems work.

We could list countless other paradoxes: with social media profiles I can express myself more than ever, but I am confined to the platform's possibilities and social constraints; with ebooks I can carry every book I want, but I am limited to those available in my device's store; with ChatGPT I no longer need to know how to write — ha — but now I need to learn how to prompt it correctly so it does not produce confident fabrications. In short, there is no escaping the paradoxes of technology. Seeking some ideal middle ground is not only naive but incompatible with the concept of paradox itself: a paradox states that something is "simultaneously X and not-X" (Mick & Fournier, 1998, p. 125). Paradoxes must be lived with, not avoided.

Designed to Frame Us

It is therefore essential that we understand not only what paradoxes the technological artifacts we interact with daily carry, but how these paradoxes are presented in terms of their affordances (Gibson, 2014; Hutchby, 2001). Technological artifacts are, after all, intentional and agentive objects — they are developed with their entire functioning designed to frame the user's behavior within the intentions of their creators (Shaw, 2017). This framing may not determine behavior fundamentally, but it encourages and discourages certain behaviors, prohibits some, manipulates others (Davis & Chouinard, 2016). In the same way that we can praise Jobs for the "beneficial" side of how his creations manifested their technological paradoxes, we can also criticize him for the "harmful" side.

Today, to live "in the world the iMac created" means far more than living in a world of beautiful, colorful, and intuitive technologies. It means living in a world deeply dependent on complex technological artifacts — but one that is largely incapable of properly decoding them. A world of users — and here the term shared with the world of drugs is apt — who not only do not understand the basic functioning of the devices that govern their lives, but whose devices are designed to prevent any use outside what their creators intend. A world ignorant of its own ignorance.

References

  • Davis, J. L., & Chouinard, J. B. (2016). Theorizing Affordances: From Request to Refuse. Bulletin of Science, Technology & Society, 36(4), 241–248.
  • Fisher, M. (2020). Capitalist Realism: Is There No Alternative? Zero Books.
  • Gibson, J. J. (2014). The Ecological Approach to Visual Perception: Classic Edition. Psychology Press.
  • Hutchby, I. (2001). Technologies, Texts and Affordances. Sociology, 35(2), 441–456.
  • Mick, D. G., & Fournier, S. (1998). Paradoxes of Technology: Consumer Cognizance, Emotions, and Coping Strategies. Journal of Consumer Research, 25(2), 123–143.
  • Morozov, E. (2018). Big Tech: The Ascent of Data and the Death of Politics. Ubu Editora.
  • Shaw, A. (2017). Encoding and decoding affordances: Stuart Hall and interactive media technologies. Media, Culture & Society, 39(4), 592–602.

// Note: This is a translated and lightly adapted version of the original Portuguese text. The author will review and revise this translation.

Publicado originalmente em O Estado de São Paulo em 19 de agosto de 2023.

Em sua coluna recente, Pedro Doria aproveita a comemoração de 25 anos do iMac para nos mostrar como os artefatos tecnológicos que, hoje, usamos diariamente, tem o computador revolucionário da Apple quase como um ancestral comum. Foi a partir dele que muito do que entendemos por tecnologia se formou, e, em especial, a nossa relação com a tecnologia. Não é, de forma alguma, uma afirmação errônea. Mas, a meu ver, mais interessante ainda seria perguntar: e o que isso significa?

Longe de uma coluna crítica, sua constatação sobre importância das grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício e seu domínio sobre nossa percepção, entendimento e relação com tecnologias é um dos pontos centrais de Morozov (2018). Mesmo focado na relação entre dados, algoritmos, IA e a cultura resultadista que domina as implementações atuais de tais tecnologias e sua relação contraditória com princípios democráticos, o argumento central de Morozov é de que, hoje, nos encontramos incapazes de imaginar um mundo radicalmente tecnológico, mas livre das amarras do Vale do Silício – o que nos lembra muito do Realismo Capitalista de Mark Fisher (2020). O mesmo vale para os iMac.

Isso é dizer que a herança de Steve Jobs e seu computador colorido são unicamente ruins? De forma alguma. É preciso entender, porém, que artefatos tecnológicos são profundamente paradoxais (Mick & Fournier, 1998). Ou seja, se de um lado o iMac era menos intimidador e de fácil uso para os menos versados com tecnologias, de outro, ele tirou de seus usuários o controle sobre seu sistema e suas funções, além de, ao deixar de ensinar seus usuários sobre seu funcionamento, introduziu um grupo gigante de pessoas tecnologicamente vulneráveis dentro de um mercado dominado por experts tecnológicos.

Os Paradoxos que Herdamos

Hoje, os resultados paradoxais do movimento da indústria para tal caminho são evidentes: ainda que nossos celulares e outros smart devices sejam altamente acessíveis e intuitivos – ao menos no papel –, isso vem acompanhado de uma precariedade massiva em termos do conhecimento sobre tecnologia por parte dos usuários. Sem tal conhecimento, é fácil explorar essa base com as mais diversas mentiras e meias verdades.

Um exemplo que descobri recentemente é do Dropbox, quando tentaram compartilhar uma pasta de trabalho comigo, que até então não tinha nem conta na plataforma. Diferente de qualquer outro serviço de armazenamento em nuvem que eu conheça, a Dropbox não cobra por espaço em disco disponível, mas por espaço disponível para cada usuário acessar. Ou seja, caso eu tenha muito espaço contratado no serviço, e tenha uma pasta com 100Gb de arquivos que quero compartilhar com você, você só pode acessar tais arquivos se também tiver ao menos 100Gb contratados. O modelo é completamente deslocado da realidade material de como discos rígidos funcionam, e uma afronta ao consumidor. Se eu pago por 100Gb em um disco remoto dentro de um servidor, eu deveria poder escolher quem acessa tais dados ou não, e isso não custaria mais armazenamento para o provedor do serviço. Mas, para ficar revoltado com esse absurdo, como eu fiquei, é preciso de um entendimento mínimo de tal funcionamento.

Podemos elencar inúmeros outros paradoxos, por exemplo: com perfis de redes sociais posso me expressar mais do que nunca, mas estou confinado às possibilidades da plataforma e às amarras sociais; com ebooks posso carregar comigo todos os livros que eu quiser, mas estou preso aos que estão disponíveis na loja do meu aparelho; com o ChatGPT não preciso mais saber redigir um texto – risos –, mas agora preciso aprender como dar o prompt correto para ele não soltar mentiras. Em suma, é impossível fugir dos paradoxos da tecnologia, e buscar algum tipo de meio termo ideal é não só ingênuo, como incompatível com o conceito de paradoxo em si: um paradoxo delimita que é "ao mesmo tempo X e não-X" (Mick & Fournier, 1998, p. 125, tradução livre). É preciso lidar com os paradoxos, não os evitar.

Desenhados Para Enquadrar

Por isso, é fundamental que entendamos não apenas quais os paradoxos que os artefatos tecnológicos com os quais interagimos diariamente trazem, mas de que maneira tal paradoxo é apresentado em termos de suas affordances (Gibson, 2014; Hutchby, 2001). Artefatos tecnológicos são, afinal, objetos intencionais e agênticos, ou seja, são desenvolvidos com todo o seu funcionamento pensado para enquadrar o comportamento do usuário dentro das intenções de seus criadores (Shaw, 2017). Tal enquadramento pode não delimitar fundamentalmente, mas encoraja e desencoraja certos comportamentos, proíbe alguns, manipula outros etc (Davis & Chouinard, 2016). Assim, da mesma forma que podemos vanglorias Jobs pelo lado "benéfico" da forma com que suas criações manifestaram seus paradoxos tecnológicos, também podemos criticá-lo pelo lado "maléfico".

Hoje, viver "no mundo que o iMac criou" significa muito mais do que viver num mundo de belas tecnologias coloridas e intuitivas. Significa viver em um mundo profundamente dependente de artefatos tecnológicos complexos, mas que é majoritariamente incapaz de decodificá-los propriamente. Em um mundo de usuários – e aqui o termo compartilhado com o mundo das drogas é preciso – que não apenas não compreendem o funcionamento no nível mais básico dos aparelhos que dominam suas vidas, como, mesmo se soubessem, tais aparelhos são desenhados para impedir qualquer uso que não seja o desejado por seus criadores. Em um mundo ignorante sobre sua própria ignorância.

Referências

  • Davis, J. L., & Chouinard, J. B. (2016). Theorizing Affordances: From Request to Refuse. Bulletin of Science, Technology & Society, 36(4), 241–248.
  • Fisher, M. (2020). Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o fim do Mundo do que o fim do Capitalismo? (1ª edição). Autonomia Literária.
  • Gibson, J. J. (2014). The Ecological Approach to Visual Perception: Classic Edition. Psychology Press.
  • Hutchby, I. (2001). Technologies, Texts and Affordances. Sociology, 35(2), 441–456.
  • Mick, D. G., & Fournier, S. (1998). Paradoxes of Technology: Consumer Cognizance, Emotions, and Coping Strategies. Journal of Consumer Research, 25(2), 123–143.
  • Morozov, E. (2018). Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. (1ª edição). Ubu Editora.
  • Shaw, A. (2017). Encoding and decoding affordances: Stuart Hall and interactive media technologies. Media, Culture & Society, 39(4), 592–602.